Tudo é polêmica
resenha crítica do romance best-seller de Carla Madeira
Oi!
Pensei bastante antes de escrever esta resenha. Ainda assim, enquanto escrevo, também elaboro uma dezena de justificativas. Respiro fundo: acredito que o texto se sustenta e confio no tom respeitoso das críticas. A escrita dessa resenha foi digerida lentamente e sua publicação sai após recente polêmica envolvendo o livro e o mundinho <influenciadores de literatura>. Eu, que sou apenas <uma camponesa> nesse mar de tubarões, deixo minhas considerações sobre um dos maiores sucessos literários das últimas décadas. Onze anos depois da publicação de sua primeira edição, Tudo é rio segue como um dos livros mais vendidos no Brasil, ocupando o oitavo lugar de vendas de livros de ficção em julho de 2025.
Entender o sucesso de um produto cultural tem sido cada vez mais desafiador. Minha cabeça que é <mezzo analógica mezzo tecnologias dos anos 2000> tem muita dificuldade de compreender fenômenos culturais nos anos 2020. Fiz as pazes com isso me dando carta branca para não viver correndo atrás de atualizações. Além disso, tenho gostado cada vez mais de diminuir o ritmo de consumo (de livros, filmes, séries) para poder saboreá-las e, se desejar, elaborar alguma opinião. Acontece que na maioria das vezes ou eu não consumo nada ou consumo e a opinião não vê a luz do dia, o que me deixa fora do hype, mas também me protege de FOMO, estafa e dívidas.
A opção de aguardar o buzz arrefecer e ler, ouvir ou assistir algo no <meu tempo> é uma das estratégias que mais me traz paz. Lançado em 2014, Tudo é rio já surfou mais de uma vez o burburinho no mundo literário e dá para dizer com tranquilidade que é um livro do tipo <ame ou odeie>. Opiniões personalíssimas à parte, nessa resenha trago aspectos formais da escritora e o impacto delas em minha leitura. Espero que possamos ter um diálogo saudável, afinal de contas, gosto é algo pessoal e ninguém precisa se justificar. Escrever uma resenha é um exercício de crítica literária e, como estudante de Letras, tenho interesse em aprimorar meus dotes textuais. Aviso: contém spoilers.
Vamos lá, boa leitura!

Aspectos gerais
Tudo é rio narra a trágica história do casal Dalva e Venâncio numa cidade pequena e interiorana. Venâncio é um homem violento, Dalva uma mulher resignada. Uma terceira personagem central, Lucy, é uma prostituta que tudo quer e tudo pode – até enfrentar a rejeição de Venâncio, o violento homem “machucado” por suas próprias ações. Com as 197 páginas onde desenrola o enredo, Carla Madeira se consagrou como a autora contemporânea mais vendida do Brasil. De saída, é um ponto admirável e curioso. O que faz este livro chegar a tantos leitores, seja através do amor ou do ódio, é um mistério. A seguir, levanto alguns pontos possíveis.
Os paratextos de Tudo é rio são categóricos: Carla e seu rio vão conquistar você. Martha Medeiros, que assina a orelha, diz na primeira linha “é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo.” Cris Guerra, no prefácio que mais se parece com uma breve carta de apresentação, é categórica: “Carla não escreve, borda.” Como amante inveterada das artes manuais, esperei por um texto semelhante a uma toalha de mesa florida, bordada com ponto-cruz, matiz ou mesmo ponto-atrás. Esperava um trabalho refinado de conteúdo e linguagem, porque um bordado é uma atividade demorada, minuciosa, detalhada e atenta. Já lhes adianto que não foi isso que encontrei. Nas bordas do livro, uma das anotações que mais repeti foi: exagero.
A frase de abertura de um romance pode decidir se a leitura seguirá ou se o livro será deixado de lado para daqui a pouco – ou nunca mais. A primeira frase em Tudo é rio tem apenas uma palavra: “Puta”. O que segue é uma repetição da palavra e também de outras expressões, aparentemente com a intenção de <dar peso> à história dessa personagem, Lucy. O primeiro capítulo já acena para características que me incomodaram durante toda a leitura: os excessos, as imagens sem polimento, as repetições cansativas e uma voz narrativa que ora lança mão de palavras difíceis, ora exagera no coloquialismo ou numa oralidade descompassada. Muitos adjetivos, figuras de linguagem bobas e por vezes perdidas… Água demais pode encharcar o papel.
Forma e conteúdo
O narrador traz de cara o impasse entre Lucy e Venâncio. O homem triste de “olhos profundos de abismos por dentro” visitava com frequência o prostíbulo onde Lucy era a rainha, mas dela mesmo não queria saber. Sua recusa intrigava a prostituta, que não aceitava não conseguir seduzir o homem cabisbaixo. A narração onisciente em terceira pessoa não convence sobre a intimidade e o <close> de certas cenas. A linguagem forçosamente sensual dá um tom esquisito para o começo da história. Como a apresentação das personagens não se aprofunda nem mesmo no desenvolvimento da história, não recuperamos os acontecimentos do início com profundidade ou reflexão. A sensação é de um folhetim intencionalmente polêmico. Nada contra, mas faltou tratar melhor a forma.
As imagens que fazem alusão ao título são insistentes e soltas no texto, perdidas em meio às ações das personagens. Há uma artificialidade na descrição das emoções e os ganchos são mal desenhados, criando uma tensão vazia: “O que ela fez, sem saber que fazia, provocou em Venâncio uma emoção aguda, os olhos dele se encheram de uma água triste, turva como a água que passa num cano onde nada passava há muito tempo e que expulsa com ela uma sujeira velha, um abandono antigo e demorado.” O uso exaustivo de adjetivos e de antônimos colabora com o enfraquecimento das ações e parece querer justificar a descrição rasa das personagens. Nem sempre a poesia é um jogo de palavras <sentimentais>, é preciso dosar sua intenção e, como num bordado, desfazer quando começa a parecer um remendo preguiçoso. Na prosa poética, o desafio é ainda maior. A escolha do tom deveria colorir melhor o que se quer mostrar. Neste caso, faltou montar uma <paleta de palavras> mais interessante ou menos óbvia.
Apesar das críticas quanto ao livro se concentrarem muito acerca do desfecho da história, este não foi um grande incômodo para mim. No caso da ficção, acredito que tudo é válido, que as mais violentas, problemáticas ou banais histórias podem e devem ser contadas. É também de histórias que elaboramos a realidade e conseguimos construir suporte para as nossas próprias vivências. Imagino que seja por aí que a paixão por este romance tenha conquistado tantos leitores, a identificação com as personagens, com os eventos, com o cenário. Essa é uma das magias da literatura e o livro consegue com louvor alcançar este mérito.
É preciso lembrar que a obra tem vida própria e ultrapassa a autoria. Ainda que Carla Madeira defenda em algumas entrevistas que o perdão é um valor importante, Tudo é rio é uma invenção. Contudo, acredito que a evidente violência perpetrada por Venâncio precisava ser melhor nomeada no livro. Seus atos passam sem o devido peso, de maneira indefinida ou mesmo suavizados. Acredito que outros nomes poderiam ser dados às suas ações, visto que a autora lança mão pesada em substantivos e adjetivos para compor uma narração poética. Então, por que não há menção direta (ou com sinônimos) para a tentativa de assassinato do bebê e de Dalva, por exemplo? Ficamos apenas com uma <cena de ciúmes> que nunca é recuperada com a definição do que é: uma tentativa de homicídio de mãe e filho. No capítulo 13, quando retoma o acontecido, o narrador nos diz: “No dia em que Venâncio arrancou o filho dos seus braços quentes e o atirou longe, ela conheceu a dor desumana de perder tudo. Perdeu o homem que amava, o filho que amava e a fé. Venâncio bateu nela, e a misericórdia de Deus não veio ao seu encontro”. Os crimes de Venâncio nunca são nomeados como tal. As pessoas da cidade não suscitam perguntas sobre o caso, sendo que a história se passa numa cidade pequena… Sendo assim, a verossimilhança de um romance realista bambeia para se sustentar.
Em outros momentos a narrativa também balança na corda do realismo. No capítulo 9, quando, numa atitude pouco crível, a Tia Duca proíbe Lucy de ir à missa (?) e então a moça, sozinha com o tio Brando, é assediada por ele, uma conversa nada natural acontece. Enquanto o homem a masturba, diz: “Você sabe que quando homem goza dentro da mulher pode fazer filho? E filho pode estragar tudo. Um filho é um projeto para uma outra vida. Não a vida que você quer. Livre, divertida, safada, não é? Vida de ser sol. De ter súditos.” O discurso se desenrola até o orgasmo de Lucy, que termina o capítulo com uma iluminação: queria ser puta. Em duas páginas, um desenvolvimento grotesco e nada provável, difícil de acreditar. No mínimo, esquisito. E que se segue no capítulo seguinte, que começa com a frase: “Entre gostar de dar e ser puta vai uma distância que Lucy tratou de aproximar”.

Precisamos lembrar que Lucy era então uma adolescente, e que seus desejos aflorados e o corpo na ebulição de hormônios traz questionamentos, vontades e intensidades. Contudo, a forma com que a autora apresenta essa realidade é forçosamente dramática e empurra, sem desenvolvimento, uma trama apressada goela abaixo. Não consegui entender a relação do tamanho da raiva de Lucy contra Tia Duca. Os diálogos entre as personagens são improváveis e ajudam a derreter as estruturas da verossimilhança. Não parece real a proporção da <vingança> da adolescente com os argumentos apresentados, como por exemplo se sentir diminuída na criação em relação às primas. Querer “se livrar da tia não era pouco, mas era o de menos”. De onde vem tanta raiva de Lucy? Não compreendemos. A passividade de Dalva tanto em relação às violências sofridas com Venâncio quanto à omissão de sua rede de apoio também é estranha e questionável, ademais a relação com sua família ser um tanto idealizada. Por fim, o trio romântico se concentra na figuração de bem e mal: a dualidade entre Dalva e Lucy, personalidades que, em parte rivais, desenrolam <juntas> o final feliz perfeito. Venâncio, o vilão-covarde-rapaz-incompreendido, perde a responsabilidade que nunca teve e sai como redentor de seus próprios crimes… Pecados?

Por último…
O livro choca, a leitura é rápida porque instiga a curiosidade e ao mesmo tempo, leva à caricaturização e ao clichê. As quase duzentas páginas vão sendo passadas a toque de caixa, o que faz sentido no mundo dos best-sellers: prende a atenção, não requisita mergulho de linguagem ou forma, provoca sentimentos fortes. Entendo que o momento da leitura impacta a recepção e por isso justifiquei, no prelúdio do texto, minha preferência em arrefecer o hype para ler um grande sucesso. Talvez, há alguns anos atrás, quando estive em uma situação de violência, a leitura trouxesse alívio, conforto ou mesmo uma resposta através do perdão. Era outra leitora que receberia as palavras e intenções de Carla. Quem sou hoje não condiz com esse gosto, com essa forma e nem com este conteúdo. Não é proibido gostar, pelo amor de deus, goste do que quiser – e gostar de ler é sempre melhor do que não ler. Tudo é rio, mas não fluiu para mim. Se leu, me conta o que achou?
Agenda
Lançamento:
Miolo do verbete, minha plaquete publicada pela Mormaço Editorial será lançada coletivamente no dia 30/08 (sábado), à partir das 17h, na Patuscada Livraria e Café (R. Luís Murat, 40 - Pinheiros, São Paulo - SP). Vou amar abraçar vocês :)
Drops
Tatiana Leite incluiu Tudo é rio na sua lista de melhores livros do século
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Um abraço,
paulamaria



Perdeu de chamar esta edição de "Tudo é o ríovel".
Eu ia preparar uma pipoquinha para ler essa sua (tão aguardada) resenha, mas fiz um procedimento odontológico hoje e a pipoca vai ficar para outro dia. Dito isso, me vi querendo destacar tantos trechos que desisti, pois você conseguiu captar no texto praticamente tudo o que eu tenho de crítica sobre o livro.
Além do que você trouxe, minha opinião sobre Tudo É Rio é que ele é um folhetim naquilo que o formato consegue ter de pior. A história carrega nas tintas do moralismo, e aquele final, por mais válido (enquanto ficção) que seja, não soa apenas como uma grande passada de pano, mas quase como uma apologia à monstruosidade do personagem masculino. E nem vou entrar na inverossimilhança completa do que acontece com a criança. O livro, ali, já não sabe mais se quer ser ficção realista, folhetim ou fantasia. Nota dó.