Confetes e serpentinas
05 anos que te escrevo cartas
Oi!
O carnaval já abriu alas faz umas semanas. As ruas já estão marcadas pela folia e as redes sociais lotadas de fotos e vídeos de gente feliz, suada e com pouca roupa. Eu, que tenho evitado bloquinhos por motivos mui pessoais, daqui a pouco vou dar uma espiada num bloco punk aqui em São Paulo. Na buena onda que estamos sobre latinidade e brasilidade, botar o corpo pra jogo numa multidão e celebrar com estranhos é um ato de resistência muito bonito e corajoso, porque vamos combinar, a realidade é um osso duro demais de roer.
Escolhi este final de semana para enviar a edição comemorativa de cinco anos da newsletter. Talvez seja a pior taxa de abertura de todos os tempos? Sim. Mas não queria deixar passar a alegria que pula no meu coração de estar aqui sendo lida e acompanhada por vocês há tanto tempo. Obrigada por tudo e lembrem-se:
Tenham um ótimo carnaval, do jeito que for! Boa leitura e muito alalalá ô!
Em 07 de fevereiro essa newsletter completou cinco anos. Quando comecei a enviar textos por e-mail, em outra plataforma e com outro nome, vivíamos a pandemia da covid-19 e as vacinas para a população em geral ainda estavam num horizonte distante. Minha memória sobre essa época, entre os anos de 2020 e 2022, é um tanto difusa, digo com convicção que em 2021 ainda achava que 2019 era <o ano passado>. Em 2021, acordava e dormia com um permanente gosto amargo na boca, muita raiva no coração e o sentimento de desesperança que parecia sem remédio. Não dá pra dizer que o mundo melhorou desde então porque né… Haja momento histórico atrás de momento histórico, mas olhando em retrospectiva para os textos enviados, vejo o quanto escrever foi um suporte importante para sobreviver a dias tão terríveis. A insistência de tentar falar algo bonito para quem lê aí do outro lado me transformou, minimamente, numa escritora melhor. Agradeço a vocês por isso, por segurarem na minha mão e seguirem acreditando na literatura e na arte, porque apesar de todos os contras (que para nós brasileiros foram inúmeros), ainda estamos aqui.
Faz dois anos que escrevi uma das edições mais lidas da newsletter: Como começar um projeto. Recebo com certa frequência a pergunta: mas como você faz tantas coisas? Até postei um vídeo sobre isso lá no Instagram e pretendo gravar outro mais longo para o canal do Youtube (aquele que <vem aí!>). Em linhas curtas, falando a bem da verdade, eu não sei. Conheço minhas motivações pra abrir tantas caixinhas de ideias, mas o <como> conseguir é algo que alcancei tentando. Assim como me espanto de estar completando cinco anos na jornada da newsletter, outros projetos também nasceram e se instalaram mais ou menos nessa ordem: a ideia me cutuca, olho para as ferramentas que já tenho por perto, desenho um rascunho, mostro para quem confio (e que sempre me apoia) e pronto. Faço. A vontade de <dar certo> sempre acompanha, não vou mentir dizendo que não espero nada daquilo que invisto energia e recursos, porém alinho minhas expectativas na possibilidade de ver o projeto no mundo, muito mais do que nos resultados que virão – ou não. Claro que muitas coisas morreram na praia ou tiveram uma vida curtíssima, contudo estes também me ensinaram e deram gás para continuar a tentar.
Escrever a newsletter por cinco anos trouxe algo muito importante: a definição das minhas obsessões criativas. Os temas dos textos, colagens, desenhos, poemas… Todos estão de alguma forma espalhados pelas 188 edições enviadas, entre ensaios, contos, listas, retrospectivas, resenhas e textos híbridos. Sempre que dou aulas sobre newsletter, destaco o que penso ser a coisa mais legal de escrever uma: experimentar a escrita sem a pressão de concursos, editais ou do mercado editorial. Aqui chego diretamente ao público, que escolhe, de livre e espontânea vontade, deixar seu e-mail aberto para quando e onde quiser, fazer uma pausa e ler. Embora a plataforma do Substack esteja se tornando mais uma rede social e confundindo inclusive o conceito de newsletter, é de extrema importância lembrar o básico: nesse tipo de interação, quem escreve envia um texto diretamente para quem lê. A plataforma é um dos meios que proporciona essa interação. Existem outras formas, inclusive, quando comecei, utilizava o Tinyletter onde não havia comentários, likes, notes, repostagens… A redessocialização é algo recente no mundo das newsletters e, a meu ver e de outras colegas escritoras, tem sido uma perda significante da graça de escrever por aqui. Mas vamos deixar um pouco de lado esse baixo astral, comentarei isso em outro momento, combinado?
Recebo de vez em quando perguntas de quem quer começar a escrever: como encontrar minha voz na escrita? Como não ser só mais uma newsletter? Como fazer sucesso no Substack? Antes de tudo, até mesmo para quem já escreve, temos um passo incontornável: para escrever… você precisa escrever. Insistir na letra, se repetir, registrar o óbvio, se desafiar na decepção de não conseguir ser diferente de si mesma. Até conseguir. Uma das coisas mais bonitas de estar aqui há cinco anos enviando meus textos é no que o texto se transforma quando encontra a leitura alheia. O imprevisível, o inesperado, a magia, a serendipidade: um triângulo feito das arestas de quem escreve, do texto e de quem lê. Ainda que o Notes esteja lotado de dicas infalíveis e de fórmulas promissoras para o sucesso, nada substitui o ato. Na criação, inspiração, estudo e técnica são importantes, claro. Mas é o ato que traz ao mundo a obra. Resista às tentações de delegar o que só você pode fazer: escreva. É por isso que muita gente está aqui, uns para escrever e outros tantos para ler. A internet está cada vez mais cheia de textos procurando viralizações e por isso, como nas redes sociais, vivemos um dia da marmota de conteúdos. Faça suas coisinhas humanas e use sua inteligência nada artificial: prometo que vale a pena.
Vem aí
A toranja, outra newsletter que escrevo em parceria com Lisandro Gaertner, publicou seu primeiro livro que entra em venda ao público geral pós carnaval. Para mais informações, me segue lá no Instagram. Eu, Yoko e Lisandro esperamos seu pedido:
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Drops
Quer fazer zines e não sabe por onde começar? Essa oficina te ajuda!
A Revista a.galinha e o Literoutubro estão disponíveis na livraria Descabeça, que fica na galeria mais legal de São Paulo, a Metrópole (atrás da Biblioteca Mário de Andrade)
A Revista a.galinha também está em outro ponto de venda física, a livraria Ugra, que também fica numa galeria charmosa: a Ouro Velho na Rua Augusta
Se gosta do que eu escrevo, você pode:
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Um abraço,
paulamaria







a observação sobre a “redessocialização” das newsletters é mto interessante! quando a escrita por e-mail começa a reproduzir a lógica da timeline, muda também a relação com o tempo e com a expectativa de resposta. talvez a transformação não seja apenas técnica, mas afetiva?
aaahhh, amei saber do canal no YouTube! Me conta td amanhã! E, claro, parabéns pelos cinco anos de newsletter - tb mto obrigada por seguir aqui escrevendo 💕